sexta-feira, 13 de junho de 2014

O legado da Copa 2014 para a Economia Brasileira

Vai ter Copa, é óbvio! Ninguém, em sã consciência, acredita que depois de quase R$26 bilhões – cerca de 1,3% do PIB – gastos com o evento esportivo que gera mais receitas com publicidade do mundo, o poder público e a sociedade de maneira geral iria aceitar que a Copa não acontecesse.
Fotomontagem: Rebaixada.org e Veja.

É óbvio também que os gastos públicos com o evento são questionáveis. Principalmente aqueles destinados à construção dos estádios "padrão FIFA". Do total de R$8 bilhões, segundo informa o site da Folha de S. Paulo [1], cerca de 90% vieram de financiamentos dos bancos federais e das unidades da federação (Estados e o Distrito Federal).
Com os R$7,2 bilhões "investidos" pelos bancos federais e unidades da federação na construção dos estádios, seria possível construir 250 hospitais, 66 mil casas populares e remunerar mais de 15.900 professores durante 20 anos (com base no piso salarial de R$1.697, estabelecido em 2014 pelo governo federal para o FUNDEB).
Questionável também é o decreto nº 7.578, de 11 de outubro de 2011, que concede generosas isenções fiscais à FIFA, em um país onde a população de baixa renda é quem paga proporcionalmente o maior volume de tributos (para mais informações sobre isso, assista no YouTube ao vídeo "Sorria! Você está sendo tributado").
Ainda são polêmicos os R$1,9 bilhões gastos pelo governo federal com a segurança do evento. Notoriamente, isso significa usar o poder público em benefício de interesses privados.
Mas, enfim, qual será o legado da Copa? O que mais interessa à população são os legados relacionados à mobilidade urbana e infraestrutura geral (portos, aeroportos e telecomunicações).
Apesar dos R$8,1 bilhões gastos por bancos federais, unidades da federação e municípios com mobilidade urbana, quase nada mudou. A população percebe isso. Ainda que inconscientemente, essa poderia ser uma das razões que motivaram as manifestações de junho de 2013: como é possível ter transportes públicos tão caros e, ao mesmo tempo, desconfortáveis e ineficientes? Mesmo com um volume expressivo de investimentos em mobilidade urbana, os benefícios fiscais às montadoras, estimulando o uso do transporte rodoviário individual, sobrecarregaram os grandes centros urbanos. E a "solução" encontrada pelo governo para resolver o problema seria risível, não fosse vexatória: decretar feriado municipal nos dias em que acontecem jogos da Copa. Ou seja, o reconhecimento de que os investimentos com mobilidade urbana ficaram muito aquém do mínimo necessário.
Quem transita pelos aeroportos beneficiados com os investimentos da Copa também identifica graves problemas. Os atrasos na entrega das obras obrigaram a Infraero a fazer os "puxadinhos" e a colocar tapumes para esconder mais um flagrante de ineficiência do poder público. Apesar dos R$2,7 bilhões gastos pelo governo federal, os usuários correm o risco de conviver ad æternum com os improvisos, caso não sejam tomadas providências pelos órgãos encarregados de fiscalizar a execução das obras, como o Tribunal de Contas da União.
Perdendo ou ganhando a Copa 2014, a conta que o país deve fazer é: quanto custou o evento e quanto isso trará de benefícios no curto e no longo prazos.
No curto prazo, a entrada de recursos provenientes do turismo pode alcançar R$25,2 bilhões segundo o site do governo [2]. O que seria suficiente para "empatar o jogo". Embora a maior parte desses recursos fique concentrada nas mãos do setor privado, enquanto a maior parte dos gastos foi despendida pelo setor público, levando inexoravelmente àquela velha máxima de "capitalizar os lucros e socializar os prejuízos".
Com publicidade, estima-se uma movimentação de US$2,9 bilhões (cerca de R$6,5 bilhões). Apesar dos US$3,5 bilhões [3] (aproximadamente R$7,8 bilhões) que deixarão o Brasil pela conta de remessa de lucros pelas mãos da FIFA, piorando o nosso deficitário saldo de transações correntes.
No longo prazo, os benefícios para o país dependem da cobertura da mídia internacional ao evento. A segurança pública – com a qual a população sofre no dia-a-dia – será decisiva para melhorar ou piorar a imagem do Brasil no exterior, o que pode aumentar ou diminuir o turismo no Brasil nos próximos anos. Eventuais queixas de turistas com furtos e roubos podem agravar a imagem de "país de ladrões". Além de que os prováveis protestos que acontecerão em todo o Brasil poderão ser um recado aos estrangeiros de que "o rei está nu".
Enfim, a população deve exigir uma intensa investigação sobre os flagrantes casos de superfaturamento com as obras, em especial no caso dos estádios. Dos R$6,08 bilhões originalmente orçados, o valor executado chegou a R$8,33 bilhões. E identificar os beneficiários desses valores é relativamente simples: basta SEGUIR O DINHEIRO. Isto é, uma simples quebra de sigilo bancário pode identificar aqueles que se beneficiaram de um sobrepreço de quase 37%. Uma severa punição aos predadores dos cofres públicos seria o melhor legado que a Copa 2014 poderia deixar ao Brasil. Mas, infelizmente, é pouco provável que isso aconteça no país da impunidade.