segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A geração rock ‘n’ roll chegou à velhice



A geração que viveu a juventude durante a década de 1950 talvez seja a última que tenha conseguido lidar naturalmente com o envelhecimento. Pais na primeira geração dos “babies boomers”, aquela geração vinha de um tempo em que envelhecer era algo quase nobre. Os mais jovens tinham absoluto respeito pelos idosos. Desrespeitar um idoso – sob qualquer aspecto – era condenável. No entanto, aquele respeito era derivado de certo medo.

Até o fim da década de 1950, a estrutura rígida da família concedia certo status aos mais velhos. Avôs eram tidos como verdadeiros líderes. Sua palavra tinha força de lei na família. Aprovação ou veto a qualquer decisão das famílias era a palavra final dos idosos. As crianças tinham até medo de olhar para seus avôs. Paravam de brincar em sinal de respeito e resguardo quando o avô ou a avó adentravam o recinto.
Àquela época, o tratamento concedido às crianças não se distinguia daquele concedido aos adultos. Assim como eram tratados adolescentes e jovens. Até no que diz respeito ao vestuário. As roupas das crianças eram cópias em miniaturas das dos adultos. Não havia indústria destinada à moda infantil ou infanto-juvenil, tal como existe hoje. Bem como não havia cinema infantil, nem músicas para jovens.
Na década de 1960, quando o rock ‘n’ roll se expandiu em todo o mundo, nasceu a indústria orientada ao público jovem. Música, trajes, costumes, toda uma cultura, enfim, passava a ser centralizada na figura do jovem. A rebeldia contra hábitos que, então, passaram a ser considerados arcaicos, tornou-se uma bandeira mundial. Enquanto davam à luz à geração X, cultuavam o “faça amor, não faça a guerra”, um lema que exalta a vida em contraste aos horrores da guerra. Associado ao advento da pílula anticoncepcional, o lema liberou os jovens para usufruir das maravilhas do sexo livre dos preconceitos religiosos e outros tabus de uma sociedade retrógrada.
Assim, injustamente, os idosos passaram a ser sinônimos do retrógrado, do ultrapassado, do arcaico, como se todos fossem igualmente responsáveis pelo subjugo de séculos, quiçá, milênios. Desde então, é comum a zombaria dos jovens quando algum idoso está perto, ainda que o coitado não tenha mencionado qualquer palavra. Só a presença, ali, é como se quisesse bronquear contra a atitude displicente e irresponsável daqueles “jovens perdidos”. Portanto, um símbolo vivo de arcaísmo.
Curioso, agora, é o fato de que os idosos da década de 2010 são aqueles mesmos jovens rebeldes que encabeçaram as revoluções da década de 1960. Ao final desta década, terão quase oitenta anos. Serão “velhos”. E serão acusados pelos mesmos “crimes” de que eram acusados os idosos do tempo em que eram jovens: o retrocesso, o ultrapassado, o arcaico. Ironicamente, sofrerão preconceitos análogos àqueles contra os quais lutaram na juventude, só que, agora, “do outro lado do balcão”: assim como os velhos de 50 anos atrás os acusavam de inconsequentes por serem jovens “despreparados” lutando por “ideais perdidos”, serão, agora, rotulados de “retrógrados” somente por serem idosos!
E aquela geração, a dos rebeldes dos anos 1960, terá de promover outra “revolução”: a da ocupação de um espaço socioeconômico para a velhice. Porque – fazendo, aqui, uma caricatura – 99% da indústria de hoje são destinadas direta ou indiretamente aos jovens e o 1% restante é destinado à produção em larga escala de itens para se manter jovem, ou minimizar os efeitos da idade. Exageros à parte, aquela geração terá de se engajar no lema “old is beautiful”, quando, obviamente, não há nada de bonito, convenhamos, em envelhecer.
Pior: tal geração lida muito, muito mal com o próprio envelhecimento! Lidam tão mal que muitos acabam se sujeitando ao ridículo e ao absurdo. Cirurgias plásticas originam criaturas esquisitas. Há uma total falta de noção em cultuar hábitos de seu tempo de jovem – ou, pior, dos jovens de hoje. Gastam fortunas em toda a sorte de cosméticos e elixires que prometem juventude prolongada... Enfim, a busca da “fonte da juventude”, agora, em escala industrial, potencializada pelo Viagra. Mas que somente serve para enriquecer as mesmas estruturas “arcaicas” contra as quais lutaram 50 anos atrás!
E as gerações pós jovens anos 1960 também sofrerão com o envelhecimento. A minha geração lida muito mal com o envelhecer – e mal está chegando aos 40! Se outrora o envelhecimento era um ônus natural à contrapartida da aquisição de vasta experiência, agora é somente um ônus. Ninguém quer contratar um idoso no mercado de trabalho. Ninguém quer conviver com um idoso. Ninguém quer nem escutar um idoso. É como se fossem verdadeiros expatriados!
Eis o desafio: como tornar novamente o envelhecimento algo nobre. E não será com expressões politicamente corretas como “terceira idade” ou a odienta “melhor idade”. Tampouco com a nascente “indústria da terceira idade”, que quer, em última instância, aproveitar-se das aposentadorias e pensões dos idosos. Trata-se de promover um novo equilíbrio. Porque o foco da sociedade saiu do 80 para o 18. Todavia, o 18 se mostrou tão retrógrado e preconceituoso quanto o primeiro. Trata-se, enfim, de estabelecer algo que até hoje não aconteceu: o respeito mútuo em todos os níveis, seja cor, sexo, crença ou idade.