quarta-feira, 11 de julho de 2018

O empresário de sucesso e o zé povão

Passeando pela timeline do meu LinkedIn sempre me deparo com a descrição do empresário de sucesso. Sempre com referências a histórias (cuja veracidade não me preocupei em checar) de personalidades conhecidas no Brasil. Jorge Lemann, Abílio Diniz, Sílvio Santos, o falecido Antônio Ermírio de Moraes... exemplos inequívocos de que o talento associado à dedicação é a fórmula para o sucesso.
Imagem: AllBusiness, 2018.

Muitas dessas histórias povoam o imaginário popular. Quem nunca ouviu dizer que o empresário de sucesso dá bom dia e boa noite a todos os funcionários? Alusão ao fato de que é o primeiro a chegar e o último a sair da empresa: dedicação. Ou que é "o olho do dono" que assegura o crescimento dos negócios?


Mais do que isso: o empresário de sucesso ama trabalhar. Sente prazer em acordar bem cedo, 6:00 horas da manhã ou antes, chegar à empresa às 7:00, no máximo 7:15, começar a analisar os demonstrativos financeiros da empresa, ler os relatórios de desempenho, estudar os movimentos dos concorrentes, contatar parceiros estratégicos, cobrar desempenho dos diretores, enfatizar a necessidade do cumprimento das metas...

A empresa é muito mais do que um meio para viver em boas condições financeiras. A vida dessas pessoas é a empresa. Literalmente. É ao mesmo tempo o sustento e o lazer - lembrei de uma frase ótima: "quem faz o que gosta não precisa trabalhar", olha que lindo!

Enquanto as "pessoas comuns" se divertem com coisas banais tais como TV, cinema, séries, baladas, futebol, churrasco, festa de amigos... adivinha qual é a diversão do empresário de sucesso? Sim! Estar na empresa até altas horas da noite noite e nos fins de semana, analisando, conferindo, estabelecendo parâmetros novos, alterando as metas... Não raras vezes o empresário de sucesso tem uísque em seu escritório. Porque ele quer beber na companhia de sua companhia (trocadilho péssimo).

As "pessoas comuns" querem estar com a família. O empresário de sucesso não pode se dar ao luxo de estar presente na família, uma vez que a empresa é a primeira família. As "pessoas comuns" gostam de estar com os amigos. O empresário de sucesso não tem amigos, tem contatos estratégicos.

Na cabeça do empresário de sucesso todos têm de agir como ele em suas vidas pessoais. Ele não consegue tolerar as "pessoas comuns" que trabalham apenas para obter meios financeiros para pagar pelo que realmente importa a estas: família, amigos, lazer...

Na mente do empresário de sucesso não faz sentido algum uma pessoa querer ir embora quando o horário para o qual foi contratada chega! Como assim? Essa pessoa não tem brios? Não quer demonstrar que pode agregar valor?

Se pudesse o empresário de sucesso passaria mais horas dentro da empresa. Se pudessem as pessoas comuns passariam menos horas dentro da empresa. Este é um conflito de interesses inexorável.

O zé povão não está nem aí para a empresa. Ele só quer fazer o seu trabalho da melhor forma possível (muitos nem isso) e ir embora o quanto antes.

Todos os manuais de empreendedorismo, liderança e de gestão organizacional ensinam que o comportamento do zé povão está errado. Que as pessoas têm de se dedicar mais, se esforçar mais, "entregar mais do que lhe é pago" (adoro esta frase!), se qualificar mais, ser resiliente, multifuncional, pró-ativo, criativo (embora na prática pró-atividade e criatividade sejam tolhidas pelas rotinas do dia-a-dia e pelo usual autoritarismo dos chefes que somente desejam entregar resultados de curto prazo).

Enfim, que o zé povão tem de sentir a mesma satisfação, o mesmo prazer que o empresário de sucesso sente quando está dentro da sua empresa, trabalhando pela sua empresa.

Os manuais só se esquecem de mencionar duas coisinhas fundamentais.

Primeiro, que satisfação e prazer são características imanentes de cada ser humano individualmente. Tais características não podem ser transferidas ou ensinadas. Talvez impostas, embora a imposição possa surtir efeito apenas externo, enquanto no âmago a pessoa sabe que apenas está se enganando.

Segundo - e mais importante: o zé povão não está trabalhando para a empresa dele, ao contrário do empresário de sucesso. E o zé povão sabe que poderá ser descartado a qualquer momento, não importa o quanto se esforce. Afinal, ele é só um número dentro da empresa, por mais que os manuais tentem convencê-lo do contrário.