segunda-feira, 17 de junho de 2013

As manifestações, o quarto poder e as verdadeiras razões



As recentes manifestações nas capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo contra mais um aumento abusivo nas tarifas públicas têm provocado uma espécie de transtorno bipolar no quarto poder. Inicialmente, a mídia parecia desprezar as razões iniciais dos protestos. Segundo os organizadores do evento, as manifestações foram planejadas para ocorrer de forma pacífica, embora seja impossível controlar os atos de uma multidão descontente.
As manifestações: inocentes agredidos de um lado, vândalos de outro.
Fotomontagem: Folha de S. Paulo, 2013.
Assim, as câmeras – afoitas por boas oportunidades de elevar o Ibope – focalizaram à exaustão o quebra-quebra provocado por anônimos que não estavam necessariamente preocupados com as causas originais dos protestos. Pichações, destruição de patrimônio público, agressão a policiais... Quem assistia às imagens das manifestações pelas câmeras dos Datenas da vida, com o estilo já conhecido de tratar a todos como se fossem bandidos, certamente tinha a impressão de que se tratava de uma nova onda de atentados do PCC.
Em um país que investe pouco em Educação, o despreparo está em todos os lugares.
Fotomontagem: Folha de S. Paulo, 2013.
Mas o despreparo da PM, somado ao estresse que os policiais têm de enfrentar no dia-a-dia e a uma dose de sentimento de poder acima da própria lei, causaram uma mudança repentina na forma como o quarto poder passou a tratar a cobertura dos protestos. Sob a máxima de “atirar primeiro e perguntar depois”, os policiais passaram a agredir indiscriminadamente a todos os que estavam na multidão, de profissionais que saíam de seus escritórios “no lugar errado e na hora errada” aos próprios jornalistas que cobriam o evento portando vinagre para atenuar os efeitos do gás lacrimogêneo.
E apesar da “linha editorial” do quarto poder ser definido por meia dúzia de oligarcas que dominam o noticiário do Brasil há pelo menos cinco décadas, quem está em campo para cumpri-la são, antes de jornalistas, pessoas. Por mais que as ordens venham “de cima”, fica muito difícil ficar do lado daqueles que supostamente apenas desejam manter a ordem, quando estes disparam balas de borracha no rosto de... Pessoas. Pior: muitos se esquecem de que vivemos hoje na era digital, em que qualquer celular tem câmera de alta resolução e que todos são potencialmente cinegrafistas. E os vídeos postados no YouTube por pessoas comuns deixam poucas dúvidas sobre a incapacidade da polícia de lidar com os manifestos, fosse na agressão fortuita, fosse no velho hábito de forjar provas, como o que mostrava um policial quebrando a própria viatura da PM para colocar a culpa nos manifestantes.
Os vídeos postados no YouTube por pessoas comuns deixam poucas dúvidas sobre a incapacidade da polícia de lidar com os manifestos.
Fonte: Folha de S. Paulo, 2013.
Mas o despreparo da polícia não é culpa dos policiais, é preciso que isso fique bem claro! É sempre bom lembrar que policiais cumprem ordens. A pergunta chave que ainda não foi feita é: de quem partiu a ordem de atirar balas de borracha e agredir com cassetetes de forma aleatória contra qualquer um que estivesse na multidão? Os Secretários de Segurança dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro têm a obrigação de vir a público dar essas respostas. Porque o silêncio revela aterrador consentimento no episódio.
Mais aterrador ainda é o silêncio das Prefeituras. Afinal, são elas as responsáveis por autorizar ou não os aumentos das passagens de ônibus. E não há declarações alentadoras de que algo será feito para, pelo menos, dar uma resposta às manifestações. É óbvio que é inviável o “Passe Livre”, como querem alguns manifestantes. Mas é viável que seja pago um valor fixo por mês que dá direito ao usuário fazer quantas viagens quiser, assim como ocorre nas grandes cidades da Alemanha. E é viável que se melhorem as condições dos transportes coletivos nos grandes centros urbanos. Por que não trazer algumas alternativas viáveis, que ofereçam transporte coletivo de boa qualidade e que desonerem o bolso do trabalhador? Isso é algo em que deveria pensar o excelentíssimo prefeito de São Paulo, que é do Partido dos... Trabalhadores!
É inviável o “Passe Livre”. Mas é viável que se melhorem as condições dos transportes coletivos nos grandes centros urbanos.
Fonte: Folha de S. Paulo, 2013.
Prefeituras, Estados e União. Quando o assunto é desoneração tributária “para valer” – e não em peças de propaganda política – as diferenças partidárias desaparecem. No cerne do alto custo das tarifas públicas estão os tributos cobrados pelas três esferas de poder. Para ser fabricado um ônibus, incidem Cofins e PIS de competência federal, além do ICMS estadual. Para manter um ônibus coletivo, anualmente é cobrado IPVA de competência estadual. Sobre as passagens urbanas incidem o ICMS estadual e o ISSQN municipal. Sobre o diesel combustível, incidem IPI, ICMS, Cofins, PIS e CIDE.
Apesar da “benevolência” concedida pelo governo federal de ter isentado Cofins e PIS das empresas de transporte público – uma clara tentativa de “jogar para a torcida” – todo o efeito cascata está aí! Segundo o site “Quanto Custa o Brasil”, a carga tributária nas passagens urbanas de transporte coletivo é de 22,95% [i]. Valor que considera apenas os tributos sobre o serviço prestado, tais como ICMS, ISSQN, Cofins e PIS sobre a passagem. Mas que pode ser mais alto se forem levados em conta os tributos que incidem sobre a aquisição dos ônibus, tais como ICMS, PIS e Cofins (que encarecem os custos de depreciação) e o principal custo tributário de manutenção, o IPVA.
Eis a verdadeira razão: desconversar quando algum problema conjuntural requer uma ação de ordem estrutural. Para resolver o “pequeno” problema das caras passagens de ônibus de má qualidade, a solução passa pela reforma tributária. Nos países desenvolvidos, tributos são majoritariamente cobrados sobre a renda e a propriedade de forma progressiva, ao passo que os tributos indiretos – que incidem sobre o consumo – tendem a ser minimizados. Quando produtos e serviços têm alta carga de tributos sobre o consumo, é a população de renda mais baixa que tende a ser mais onerada. O que está bom para aqueles que determinam as linhas editoriais, para quem fabrica o produto ou presta o serviço e para quem está no poder (seja de esquerda, direita ou centro). Só não está bom para quem é o mais interessado: o povo!
Nos países desenvolvidos, os principais tributos são cobrados sobre a renda e a propriedade de forma progressiva. Produtos e serviços com alta carga de tributos oneram a população de renda mais baixa.
Fonte: Google Maps, 2013.